quarta-feira, 29 de julho de 2009

O HOMEM TOCHA E A MULHER DIAMANTE


Por Lais B. Marques
Já na casa dos “enta”, carreira profissional que poderia ser considerada de sucesso, não sei se por opção ou falta de oportunidade, solteira, sempre fui mais observadora do que participante dos jogos das relações entre homens e mulheres. Era considerada uma mulher mais prática do que romântica e anunciava, orgulhosamente, ser de uma geração feminista, que dirige bem um carro e mal sabe fazer café. Mulher forte, economicamente independente, vivendo de maneira livre minha sexualidade, acreditava que tinha conquistado tudo que as mulheres de décadas passadas buscaram. Mas no meu íntimo, algo estava faltando. Onde estava meu “príncipe encantado”? Onde é que nessa estória dessa princesa tão bem resolvida podia haver espaço para o “herói” se ela já sabia se defender da bruxa malvada, lutar com os dragões e governar, sozinha, seu reino?

Certo dia uma situação inusitada me fez começar a refletir com novos olhos sobre os encontros e desencontros dos relacionamentos nos dias de hoje... Na busca pelas respostas, já havia passado por várias teorias, criadas ou lidas: a da “era dos descartáveis”, onde consumimos o que interessa e reciclamos o frasco que já não tem utilidade para nós; do stress, quando nos sujeitamos a tantas coisas que não toleramos nada de quem mais amamos; das “neuroses complementares” que criam as relações e mantém pessoas juntas enquanto se “alimentam mutuamente”; do sucesso das comédias românticas, onde os personagens têm coragem de fazer e dizer coisas que, na vida real, pouco nos permitimos; das almas gêmeas, onde existe uma única pessoa capaz de ser nosso complemento e portanto, é como procurar a lente de contato que caiu na pia; e principalmente, as de mesas de bar com as minhas amigas em noite de “confessionário”, como chamamos nossos encontros só de mulheres, independente de seu estado civil e quantidade de filhos, regadas a muita cerveja. Todas elas explicavam, me ajudavam a entender, mas não me ajudavam a “curar” as relações.

Um dia, participando de um ritual de um grupo espiritualista, uma cena me marcou de uma forma diferente, por sua força e sutileza. Caminhávamos num local escuro, no campo, e para nos ajudar, homens, postados aos pares a cada um ou dois metros, um de cada lado do caminho, empunhavam tochas acesas, iluminavam os buracos, nos orientavam nos desníveis, ofereciam a mão para enfrentarmos pequenos obstáculos e delineavam o caminho que deveríamos seguir. Nós, mulheres, aceitávamos de bom grado esta proteção e seguíamos por aquele corredor iluminado pelo fogo das tochas que eles seguravam, sentindo-nos seguras e importantes.

Uma sensação muito forte, quase uma emoção, tomou conta de mim. Acredito que até aquele dia, nunca havia me sentido tão feminina. Não importava a idade, altura ou porte físico, todos eles se tornavam grandes homens, fortes e poderosos, eram verdadeiros heróis, mesmo que fosse apenas por aquele momento. Enquanto isso, nós, mulheres, também sem importar a idade ou aparência física, nos tornávamos as jóias mais raras e preciosas, pessoas inspiradoras e merecedoras daquela atenção e carinho.

Naquele dia percebi que na busca pelo meu papel na sociedade, algo tinha se perdido em mim. Juntei as minhas reflexões com algumas conversas com amigos, teorias de energia feminina e masculina, Yin e Yang, revisei meus conceitos de feminismo e feminilidade, de machão e masculino, observei com outros olhos as relações, a realidade e a ficção; coloquei tudo em um caldeirão e dele surgiram as duas figuras sobre as quais comecei a refletir: o “HOMEM TOCHA” e a “MULHER DIAMANTE”. Seus nomes e trocadilhos maliciosos que permitem não são por um acaso... Estes seres que se complementam tão bem, se fazem em todos os sentidos: práticos, emocionais e sexuais.

Devo confessar que, tal qual a história do antigo testamento, o Homem Tocha nasceu primeiro, mas isso não por algum conceito machista ou religioso. Simplesmente foi mais fácil, por ser mulher, perceber primeiro as minhas expectativas em relação aos homens, idealizar o homem quase perfeito, para depois pensar que eles também tinham suas expectativas em relação às mulheres. Nas primeiras vezes que falei sobre o assunto, só o aspecto masculino aparecia. Aos poucos, fui notando que existiam amigas que tinham ao seu lado potenciais homens tochas e não percebiam isso. Nas brincadeiras, passaram a cobrar de seus companheiros aquele homem perfeito, sem olhar para si e suas próprias atitudes. Descobri que a teoria estava incompleta. Foi então que surgiu a Mulher Diamante, afinal, para que exista um deles numa relação, é preciso que exista também o outro, senão eles nem se reconhecem.

Vale a pena também esclarecer que os nomes “homem” e “mulher”, não devem definir o sexo das pessoas envolvidas. Acredito que casais homossexuais também tenham as mesmas buscas de complementação, ou mesmo que existam “casais invertidos” em que os papéis são trocados, mas não vou me estender nestes aspectos e nem me preocupar em definir para que “tipos” de casais ela pode ser válida. Vou simplesmente tratar como “homem” a energia masculina e como “mulher” a energia feminina, seja lá em que corpo ela estiver presente.

Sejam bem vindos, Homens Tochas e sejam bem vindas Mulheres Diamantes. Que minhas reflexões possam nos ajudar a encontrar o nosso verdadeiro EU e nosso COMPLEMENTO DIVINO. Que possamos dar um passo a mais para descobrir que ao nosso lado existem pessoas com potencial de nos complementar e para quem podemos fazer o mesmo, tornado nossas vidas mais “floridas”, afinal, dentro de cada um de nós estão: o HOMEM TOCHA ou a MULHER DIAMANTE.

Um comentário:

  1. Como diz Joseph Campbell na obra O Poder do Mito "Dois inteiros se encontram para formar um terceiro ser".
    Quem não é capaz de se sentir pleno sozinho, nunca irá conseguir ter um relacionamento satisfatório, pois torna-se um poço de carência ambulante que projeta na outra parte seus sonhos, desejos, frustações etc... e nunca será capaz de assumir as rédeas e a responsabilidade de sua prórpia vida.
    Descobrir-se pleno é a chave para conseguirmos desenvolver um relacionamento maduro e saudável com desenvolvimento de ambos.
    Não acredito em complementos nem tão pouco em almas gêmeas.

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